
Gravuras: Cleiri Cardoso
Artista: Cleiri Cardoso
Curadoria: Valquíria Prates
Período: 06/08 a 17/08/2022
Curadoria: Valquíria Prates
Período: 06/08 a 17/08/2022
Ritos de Água
“O homem simultaneamente representa e é a paisagem"
Anne Cauquelin
Anne Cauquelin
“A paisagem é resultado da acumulação de tempos”
Milton Santos
Milton Santos
As obras que integram a mostra Ritos de Água, da artista Cleiri Cardoso, me levaram a lembrar de uma carta de amor, escrita nos idos de 2011. Começava com a ideia de que a minha relação com o destinatário era um rio em que nenhum de nós tinha conseguido ainda entrar por completo. Fluxos em linhas e corredeiras abaixo, a carta terminava dizendo que a sensação era também outra: de que ele mesmo, meu leitor, era um rio caudaloso onde eu estava tentando mergulhar, mas ainda estava à beira, ensaiando o movimento do mergulho completo, observando em suspensão por mais de dez anos o desafio de me confiar às correntezas sem a certeza do apoio da terra firme.
Ouvindo de Cleiri sobre o processo de criação de cada trabalho, fui aos poucos adentrando os ritos de água presentes em sua performatividade, criando relações em que acontecem só os atravessamentos, ritos e oferendas possíveis, marcando os ciclos e tempos do ser-rio vivido.
Em Autopaisagem, acompanhamos o caminho performado por Cleiri ao longo do fluxo das águas de um rio que lava a imagem de seu corpo, projetada e impressa como sombra-silhueta, causando em muitos de nós a sensação de que as águas atravessam nossos próprios corpos pelos ouvidos, com a força do som das corredeiras. Um caminho de arrancar da pele, da superfície, mas também de atravessar o corpo, lavando o que não cessa em se deslocar na paisagem, ao longo de distâncias que foram sintetizadas em cerca de sete minutos do tempo cronológico. Como será que buscamos modos de deixar na paisagem fragmentos do que fomos e já não faz sentido? O que começou como uma caminhada e aos poucos se tornou registro ganhou na edição simples a força de um momento ritualizado: uma lavação com a limpeza necessária dos afetos. O corpo busca a paisagem para se hibridar e purificar.
Cleiri me contou que o trabalho Lábil é um stop motion criado a partir de uma série de gravuras em metal feitas em “ponta seca”, permitindo que os desenhos sejam gravados diretamente em uma chapa de cobre e possam ser modificados por meio de raspagens, apagamentos e modificações. Estes recursos são usados para criar sete cenas de desenhos que são digitalizados para compor a vídeo animação. Cada gravura resulta de um estado da matriz que deixou de existir para que a sequência fosse criada. Essas imagens impressas contam histórias de matrizes e também são frames da história de amor contada no vídeo. Nele, vejo uma imagem do fim de minha carta de amor: ela se faz "ser-rio", corpo fisgado de anzol, rio pescado, fluxo e correnteza onde o peixe brinca, se banha, aos saltos e deslizamentos de pele com pele em uma dança de entradas e saídas, mergulhos completos, parciais ou simplesmente os que foram possíveis. O que pode acontecer quando a gente apenas faz o que precisa, sem saber porque?
Posso dizer que as imagens em movimento de Cleiri Cardoso, registradas ou desenhadas, me arrastam para a força das águas de um verso da poeta Ana Estaregui: “os rituais são para os rios”. E nós, paisagens representações, talvez sejamos os próprios ritos de começo, meio e começo. Água.
Ouvindo de Cleiri sobre o processo de criação de cada trabalho, fui aos poucos adentrando os ritos de água presentes em sua performatividade, criando relações em que acontecem só os atravessamentos, ritos e oferendas possíveis, marcando os ciclos e tempos do ser-rio vivido.
Em Autopaisagem, acompanhamos o caminho performado por Cleiri ao longo do fluxo das águas de um rio que lava a imagem de seu corpo, projetada e impressa como sombra-silhueta, causando em muitos de nós a sensação de que as águas atravessam nossos próprios corpos pelos ouvidos, com a força do som das corredeiras. Um caminho de arrancar da pele, da superfície, mas também de atravessar o corpo, lavando o que não cessa em se deslocar na paisagem, ao longo de distâncias que foram sintetizadas em cerca de sete minutos do tempo cronológico. Como será que buscamos modos de deixar na paisagem fragmentos do que fomos e já não faz sentido? O que começou como uma caminhada e aos poucos se tornou registro ganhou na edição simples a força de um momento ritualizado: uma lavação com a limpeza necessária dos afetos. O corpo busca a paisagem para se hibridar e purificar.
Cleiri me contou que o trabalho Lábil é um stop motion criado a partir de uma série de gravuras em metal feitas em “ponta seca”, permitindo que os desenhos sejam gravados diretamente em uma chapa de cobre e possam ser modificados por meio de raspagens, apagamentos e modificações. Estes recursos são usados para criar sete cenas de desenhos que são digitalizados para compor a vídeo animação. Cada gravura resulta de um estado da matriz que deixou de existir para que a sequência fosse criada. Essas imagens impressas contam histórias de matrizes e também são frames da história de amor contada no vídeo. Nele, vejo uma imagem do fim de minha carta de amor: ela se faz "ser-rio", corpo fisgado de anzol, rio pescado, fluxo e correnteza onde o peixe brinca, se banha, aos saltos e deslizamentos de pele com pele em uma dança de entradas e saídas, mergulhos completos, parciais ou simplesmente os que foram possíveis. O que pode acontecer quando a gente apenas faz o que precisa, sem saber porque?
Posso dizer que as imagens em movimento de Cleiri Cardoso, registradas ou desenhadas, me arrastam para a força das águas de um verso da poeta Ana Estaregui: “os rituais são para os rios”. E nós, paisagens representações, talvez sejamos os próprios ritos de começo, meio e começo. Água.
Valquíria Prates
Ficha Técnica:
Lábil 2020, 168 gravuras em metal, ponta seca sobre papel do Nepal, 15x15cm cada. Vídeo animação 4”1’
Autopaisagem, 2013, Video, 7"56"
Lábil 2020, 168 gravuras em metal, ponta seca sobre papel do Nepal, 15x15cm cada. Vídeo animação 4”1’
Autopaisagem, 2013, Video, 7"56"