Foto: Ana Dandara Miranda

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Artista: Jessica Fertonani Cooke
Curadoria: Arasy Benitez
Período: 16/12/2023 a 27/01/2024

Um bom lugar para morrer

A exposição Um bom lugar para morrer propõe uma reflexão sobre a  imaterialidade sem ignorar o caminho que passa pelas marcas da experiência material, profundamente afetada pelas restrições do capitalismo, que permeia todos os âmbitos da vida, afetando profundamente a nossa relação com o intangível. Em tempos de valorização de sensações passageiras e necessidade de estímulo contínuo, Jessica Fertonani Cooke se dedica a propor uma ampliação da percepção do sensível,  fazendo da sua prática artística um ato de resistência ao transferir para a práxis o conceito de “espaço-negativo”. Elaborando alongados interstícios de descompressão do tempo, abre espaço à sua espiritualidade e, por fim, abre espaço às obras apresentadas nesta sala. Esvaziando o tempo-espaço das exigências do cotidiano, valoriza as pausas e adentra estágios de concentração, rejeitando a ideia de racionalidade descorporificada e empregando seu corpo como unidade pensante, dotada de virtudes reflexivas e espirituais. O seu processo envolve encontrar momentos próximos ao sono, estágios prolongados de divagação e de meditação que a permitem transpassar de seu corpo, adentrando a temporalidade do sonho e da magia. As obras são, assim, remanescentes desse processo de incitação do corpo e de estímulo à revelação da sua experiência e busca pessoal.
Os espaços-negativos minuciosamente trabalhados nas obras são vazios preenchidos de oportunidades para sensações outras em relação à vida e à morte. As bordas contornando desenhos evocam memórias de outros tempos e outras inteligências, as não humanas, consideradas inferiores pelo consenso comum. Bordas rasgadas, feitas ao acaso, nos lembram movimentos e feições da natureza à qual pertencemos e a qual a artista tenta se integrar de forma desierarquizada, apesar da nossa cultura que insiste em nos colocar acima dela. As obras em materiais transparentes e leves falam sobre aquilo que não é possível tocar mas é possível sentir. Um bom lugar para morrer, óleo sobre papel presente na exposição, e que dá o título à mesma, emerge de uma pesquisa da artista sobre a mortalidade e a compreensão que os animais parecem ter sobre a morte. Ao observar como os animais lidam com esse momento, procurando o melhor lugar para morrer, abre-se a possibilidade de acreditar que pertencemos a algo maior e que a vida começa bem antes do nosso nascimento e termina bem depois da nossa morte. Nas palavras de Emanuele Coccia, “Nossa vida, aquilo que imaginamos ser o que há de mais íntimo e incomunicável em nós, não vem de nós, não tem nada de exclusiva ou pessoal: ela nos foi transmitida por outrem, animou outros corpos, outros pedaços de matéria, além daquela que nos abriga”. Assim, nascimento e morte não seriam começo nem fim, e sim continuidade.
Arasy Benitez

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